Universidade dos Açores trabalha em pesticidas biológicos feitos a partir de extractos de conteira e louro das ilhas

Desde Novembro do ano passado que a Universidade dos Açores, em conjunto com investigadores da Universidade de La Laguna, do Cabildo de Tenerife e do Cabildo Insular de Gran Canária, da Universidade da Madeira e do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário de Cabo Verde, têm vindo a trabalhar no projecto MACBIOPEST, que tem como principal objectivo criar pesticidas biológicos que possam ser preparados e utilizados pelos agricultores para protegerem as suas culturas.
Na Universidade dos Açores, têm sido vários os trabalhos de investigação feitos tendo como base os produtos naturais existentes na Região, sobretudo no que diz respeito a projectos realizados na Macaronésia financiados pelo programa INTERREG-MAC.
A trabalhar nesta fase inicial do projecto, num dos laboratórios do complexo científico da Universidade dos Açores encontramos as investigadoras Carmo Barreto e Ana Seca, e o bolseiro de investigação Wilson Tavares, que ao nosso jornal explicam que a criação destes pesticidas biológicos vem também ao encontro da legislação que tem sido publicada pela União Europeia, alertando para a necessidade de substituir os pesticidas tóxicos por alternativas mais amigas das pessoas e do ambiente.
“Tem saído legislação na União Europeia precisamente acerca da necessidade de substituir os pesticidas sintéticos, que são mais tóxicos, por pesticidas menos tóxicos, não só para os seres humanos mas também para o ambiente, nomeadamente para as abelhas e para os outros insectos auxiliares da polinização, que também são muito importantes”, explica a investigadora Carmo Barreto, responsável por coordenar este projecto na universidade açoriana.
Isto é, apesar de a utilização destes pesticidas serem autorizados de forma massiva na agricultura desde a segunda metade do século XX, a realidade é que estes têm “vindo a provocar o declínio de outros insectos que não são os insectos causadores de perdas na agricultura que se pretendem eliminar”, o que a médio prazo pode provocar grandes alterações na produção de alimentos, como a extinção das abelhas, por exemplo.
Contudo, antes desta utilização em massa de produtos químicos para assegurar o crescimento dos cultivos, os agricultores utilizavam algumas plantas que conseguiam repelir ou matar pragas que colocassem em causa os alimentos, como o caso dos coentros, explica Wilson Tavares, que são conhecidos “afugentarem o pulgão-verde-do-pessegueiro”.
Ainda na agricultura biológica, há também registos de agricultores que faziam certos tipos de preparações para afastar pulgões, por exemplo, mostrando assim que é possível encontrar em cada uma das regiões que participam neste estudo algumas plantas que se tornem em pesticidas biológicos eficazes.
No fundo, explica a coordenadora do MACBIOPEST na Universidade dos Açores, este projecto tem como objectivo utilizar a “informação valiosa” que algumas pessoas e/ou produtores agrícolas possam ter em relação a plantas ou preparados que funcionem como potenciais pesticidas biológicos, permitindo não só comprovar cientificamente essa informação, como aperfeiçoar e ceder aos agricultores a “receita” destes pesticidas para que os possam replicar nas suas plantações.
“Nós sabemos que há pessoas que têm informação muito valiosa e queremos perguntar a estas pessoas quais são as plantas que têm utilizado ou quais as plantas que os avós utilizavam que seriam mais indicadas para nós estudarmos. No fundo, é pegar na perspectiva científica para abordar o saber tradicional. Ver se de facto é aí que estão as plantas mais adequadas para encontrarmos estes biopesticidas”, diz Carmo Barreto.
Porém, com a questão pandémica, aquele que seria o primeiro passo a dar teve que ser adiado para uma altura em que seja seguro e adequado falar com as pessoas pessoalmente. Por esse motivo, o grupo de investigadores criou um inquérito (mais informação na caixa abaixo), com o objectivo de fazer uma triagem e chegar até às pessoas que possam ter conhecimento popular nesse sentido.
Assim, optou-se por em primeiro lugar consultar alguma literatura científica, com o intuito de verificar o que havia já descrito que pudesse ter alguma validade, conferindo assim aos cientistas açorianos um ponto de partida para que pudessem, de alguma forma, arrancar com o projecto.
Deste modo, e como cada uma das regiões envolvidas no projecto se encontra a estudar várias espécies de planta diferentes da sua região, de forma a explorar os seus potenciais enquanto pesticidas, os Açores comprometeram-se a estudar a conteira, amplamente estudada nos últimos anos para outras funcionalidades, e o louro das ilhas.
Conforme refere Ana Seca, a escolha pelo aprofundar do estudo da conteira recaiu no facto de, há alguns anos, no pólo universitário da Ilha Terceira, onde se estudam Ciências Agrárias, “ter sido apresentado num congresso que a conteira teve alguns resultados contra o escaravelho japonês”, estudo este que não foi continuado.
Ou seja, refere, “há aqui o indício de que pode haver nesta planta alguma coisa interessante, então nós retomámos o trabalho para verificarmos isso com mais detalhe e mais profundidade. Nós temo-la com fartura mas não sabemos se ela é conhecida popularmente para alguma destas coisas mas há indícios no trabalho científico realizado”.
Por seu turno, a escolha pelo louro chegou por intermédio de dados recolhidos através da literatura, mostrando que esta planta contém óleos essenciais, um tipo específico de extracto, que tem actividade contra alguns insectos e caracóis, uma das principais pragas para as culturas.
“Não quer dizer que não trabalhemos mais espécies assim que consigamos fazer as entrevistas”, diz a professora de Química com especialização em produtos naturais, mas primeiro seria necessário cruzar a informação fornecida pelos produtores e pela literatura científica, “ver quais destas plantas estão já estudadas, ver quais as referidas pelo saber popular que não foram estudadas e então dedicar-nos ao seu estudo”.
Numa fase posterior, os extractos destas duas plantas que estão a ser preparados em laboratório por Wilson Tavares e por Ana Seca serão testados com o apoio de outros investigadores especializados em insectos, com o intuito de verificar qual o impacto que estes têm sobre algumas das espécies causadoras das pragas mais comuns da agricultura.
Contudo, no processo de criação deste preparado a que chama extracto, a equipa de investigadores demonstra ainda preocupação em fazer com que este seja fácil de replicar pelos agricultores, tirando por isso “os solventes que não são fáceis de utilizar pelos agricultores e que estes nem conseguiriam comprar porque são de uso científico”, apesar de “em termos químicos terem alguma vantagem”.
Assim sendo, aquilo que tem vindo a ser feito utiliza apenas etanol, ou seja, o comum álcool, para que estes possam “ser feitos e usados pelos agricultores. São coisas que não exigem muita energia, que não são feitas com aquecimento mas sim à temperatura ambiente e que são como um chá, já que as plantas são secas e deixadas lá de molho”, explica a professora de química.
Apesar de o projecto em si não ter de momento nenhum parceiro ao nível industrial, sendo que se encontra também numa fase muito inicial, admite-se a possibilidade de, no futuro, ao haver alguma empresa da Macaronésia interessada no produto, este poder também ser comercializado.
Ainda de acordo com o grupo de investigadores, a agricultura biológica deve ser apontada como o futuro: “Toda a gente está a resistir à agricultura biológica porque ela economicamente não é tão lucrativa como a agricultura intensiva, isto é, sai cara ao agricultor e as pessoas não vêem a parte ecológica e sustentável da questão, porque quando virem – se não forem obrigados a ver – as coisas vão mudar”, conclui Ana Seca.